sexta-feira, 5 de agosto de 2011

MASCULINIDADE

É histórico na cultura  popular a imagem de homens que divergem de sua masculinidade. Ninguém os ensinou a ser verdadeiramente homens. Crescem e vivem de uma aparente integridade e assim moldam sua personalidade. São meros desconhecidos a forjar uma imagem de si mesmos. Imagem, não rara, associada a uma figura masculina perfeita, dedicada ao trabalho, a mulher e aos filhos, que nunca perde, são eternos vencedores. Uma máquina perfeitamente ajustada. Inevitavelmente, esta postura implica repressão à tudo que represente empecilho à sua ascese social, incluindo o seu lado sentimental de afetividade e sensibilidade. É uma realidade que insurge questionamentos sobre o vazio sentimental e sobre a superficialidade histórica dos homens. Significa afirmar que são personalidades constituídas de instâncias concorrentes e antagônicas e sobre tensão permanente.
Dentre estas tensões destacam-se a anima; a imagem da mulher presente no inconsciente do homem e definidora do lado feminino na personalidade masculina. Imago arquétipo, herdado de nossos ancestrais, arraigados no inconsciente coletivo, de todos os indivíduos, que permitem a identificação do homem com a natureza da mulher e vice-versa. O fato é: "não existe homem algum, tão exclusivamente masculino que não possua em si algo de feminino." Não raro, entretanto, os homens ocultam este traço afetivo de suas vidas, pois entendem tratar-se de características femininas. Pior, este homens acreditam ser uma virtude reprimir tais traços de sua personalidade e ignoram que a repressão desta faceta não é anulada. Ao contrário é acumulada no inconsciente e refletem no consciente de outras formas.
Reprimir a anima pode criar a ilusão externa de um homem forte e firme em suas convicções, a ilusão aparente da plena realização. Mas internamente, estes mesmos homens se deparam com uma criança delicada, amedrontada consigo mesma e com os outros, ansiosa para se lançar na busca de uma vida plena de paixão, ternura e amizade. Muitos descobrem tarde demais as conseqüências relacionadas a não aceitação da imago feminina presentes em sua masculinidade. Olhar mais intimamente para a formação do homem contemporâneo implica observar o quão desordenado é a formação de sua personalidade. O menino é moldado em um ambiente de supressão e repressão das fraquezas, não é educado para ser homem, é moldado para provar sua capacidade de não expressar sentimentos e assim provar sua masculinidade. Homens não choram, não são carinhosos e nem dóceis, pois são homens.
Formaram-se, deste modo, muitos homens incompletos, machos, reprodutores, superficiais. Incapazes de ousar demonstrar sensibilidade para com os filhos ou para com um amigo. "A maioria esmagadora dos homens é incapaz de colocar-se individualmente na alma do outro". Estes meninos, quando adultos, serão incapazes de deixar aflorar sua anima e fatalmente terão problemas no relacionamento tanto com outros homens quanto com as mulheres.
É preciso coragem para enredar no caminho de maturação e da autêntica masculinidade. Steve Bidduph afirma em seu livro, Por que os homens são assim? que "se existe um primeiro passo a ser dado pelos homens em direção à cura, provavelmente é começarem a ser mais verdadeiros". Ser verdadeiro implica  assumir sua infelicidade na sociedade, aceitar que vivem em um simulacro entre a família, o trabalho e de volta a família. Assumir que isto só perpetuará o sofrimento. Carl Jung afirma que "o ponto de maturidade da psique humana está na harmonia das várias instâncias", e que "a harmonia entre anima e animus retém o pleno desabrochar da personalidade". É necessário, pois, que o homem se conscientize desta bissexualidade inata, da presença da natureza feminina em si, e assim, possibilitar seu encontro com a verdadeira masculinidade. Para Asa Baber, "o homem natural vive em todo homem. Ele é belo e divino. Tem uma enorme energia fundamental e um grande amor pelo mundo. É tão educador, protetor e criador quanto a figura feminina, mas educa, protege e cria a seu jeito masculino. ... A tarefa do homem é se conhecer melhor, de modo a aumentar sua contribuição para o mundo e a honestidade para consigo" 

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Alma serena e casta, que eu persigo...

"Alma serena e casta, que eu persigo

                               por Vicente de Carvalho

Com o meu sonho de amor e de pecado,
Abençoado seja, abençoado
O rigor que te salva e é meu castigo.

Assim desvies sempre do meu lado
Os teus olhos; nem ouças o que eu digo;
E assim possa morrer, morrer comigo
Este amor criminoso e condenado.

Sê sempre pura! Eu com denodo enjeito
Uma ventura obtida com teu dano,
Bem meu que de teus males fosse feito".

Assim penso, assim quero, assim me engano...
Como se não sentisse que em meu peito
Pulsa o covarde coração humano.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Feitiços do olhar


Olhares cativantes, capazes de despertar santos em transe,
olhares desferidos pela vontade para desnortear os homens.

Vejam, são olhares que penetram a mais forte das mentes – imagine o poder:
fortes o bastante para causar arritmia em calmos e bravos corações;

Vejam, são olhares vibrantes, ungidos nos reinos sepulcrais,
são olhares cingidos em signos, sutilmente expressos,
ainda assim, facilmente apreendidos pelos incrédulos;

Expressões claras de uma dor, tão cuidadosamente camuflada,
mesmo assim, testemunha de uma história tocante, amarga;

Vejam, são olhares cativantes a revelar um passado doloroso,
ainda não revelado, onde cada vislumbre descortina
a força interna da vida de homens castos.



segunda-feira, 25 de julho de 2011

Grande Virilidade

Marcos Simão

Gosto de ver os homens como eternas crianças.
Ilesos ainda de todas as máculas do mundo.
Ungidos pela inocência da infância, cuja vida é apenas uma brincadeira.
Um espetáculo sereno para um dia sereno.

Melhor, adoro ainda contemplá-los
como almas maduras e menos inocentes,
muito viajadas na poeirenta estrada da vida,
orgulhosamente a levar seus pequenos brasões
degenerados, recheados de memoriais de alto padrão.

Triste experiência do destino,
desde a queda de suas mascaras, frágeis armaduras
a levar, orgulhosamente, suas vidas com suas próprias mãos.

E ainda, que se escondam dentro de suas próprias profundezas,
cujas feridas foram disseminadas com cuidado,
mesmo assim, espalhadas pelo todo.
Como uma flor madura com conteúdo auto-forjado.

São nobres que resolvem reprovar os deuses
e ousam afirmar a eminência do homem
acima do nível de felicidade dos brutos.

E mais, eles nos anunciam das alturas,
para a qual nenhum caminho natural jamais nos guiará,
e nenhuma luz natural pode iluminar nossos passos,

Podem apenas refletir distantes raios de luz que brilham
dos olhos reticentes de um bravo homem.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Faseologia e Autonomia do Desenvolvimento

Marcos Simão
O pensamento de Celso Furtado

Resumo
O estruturalismo econômico teve como objetivo principal pôr em evidência a importância dos "parâmetros não-econômi-cos" nos modelos macroeconômicos. A presença de Celso Furtado foi central no debate para o amadurecimento e auge do ciclo ideológico do "desenvolvimento" no Brasil, entendido como a ideologia de superação do subdesenvolvimento, através de uma industrialização planejada e orientada pelo Estado. Os elementos históricos ocorridos na segunda metade da década de 50 ensejaram as mudanças que estariam para ocorrer, nos anos 60, nos rumos do debate econômico - um acirra-mento dos problemas macroeconômicos - crescente visibilidade urbana da hetero-geneidade social, resultante da incapacidade da indústria em absorver a enorme força de trabalho que migrava do campo à cidade. As idéias que permeavam a década de 60 nas obras de Furtado, e, sua contribuição histórica na análise estruturalista do subde-senvolvimento podem ser compreendidas pela noção dada de subdesenvolvimento. Para Furtado, o desenvolvimento, hoje, consiste, essencialmente, em dar curso à capacidade criativa do homem.


O Desenvolvimento 
Ainda que fosse simples, não seria fácil. Pois a idéia de classificar os sistemas econômicos históricos e de definir, a partir dessa classificação, tipos ideais - categorias abstratas - de sistemas econômicos, com base num pequeno número de fenômenos passíveis de expressão quantitativa, mesmo sendo muito antiga, é imaginar que esses tipos ideais são fases pela quais passam necessariamente todas as sociedades em sua evolução. Entretanto, isso é uma forma particular de interpretação da história fundada nas idéias de progresso que permeiam a filosofia européia a partir do Iluminismo.
Partindo do estruturalismo cepalino de Raúl Prebich, Celso Furtado introduziu "história", cujo alicerce que pode ser chamado de "método-histórico-estrutural", construído a partir dos anos 40, é o da análise do subdesenvolvimento econômico, num trabalho dividido em quatro níveis da análise econômica, ou seja, o "teórico", o "histórico", o da análise "aplicada" aos processos e tendências correntes e o da "formulação" de política econômica. Em um segundo momento, incorpora a sua obra a partir das décadas de 50 e 60 (início de sua experiência na SUDENE) os níveis sócio-econômico e sócio-político. Já em 60 insere considerações sobre a cultura - Dialética do Desenvolvimento, 1964. Criatividade e Dependência, 1978. e Cultura e Desenvolvimento em tempos de Crise, 1984.
"O desafio que temos diante de nós é simplesmente este: como modificar o conjunto de forças que estão dividindo este pais em dois, marcado pela pior das desigualdades que é a que distancia o pauperismo da abundância? Como modificar o curso do processo histórico que está sovacando a unidade deste grande país, ao mesmo tempo que permite a formação, dentro de suas fronteiras, de uma área que poderá vir a constituir um problema para todo o Hemisfério? Como evitar que o grande esforço que o país já realiza no Nordeste continue a ser frustrado em seus objetivos últimos por aquelas forças que traumatizam o desenvolvimento da região"
Furtado, Celso. 1959 - Discurso de posse do cargo de superintendente da SUDENE
O que se entende por pensamento "estruturalista" latino americano em economia não tem relação direta com a escola estruturalista francesa, cuja orientação geral tem sido privilegiar o eixo das sincronias na análise social e estabelecer uma "sintaxe" das disparidades nas organizações sociais. O estruturalismo econômico (escola do pensamento surgida na primeira metade dos anos cinqüenta entre economistas latino-americanos) teve como objetivo principal pôr em evidência a importância dos "parâmetros não-econômicos" dos modelos macroeconômicos. Como o comportamento das variáveis econômicas depende em grande medida desses parâmetros, e a natureza dos mesmos pode modificar-se significativamente em fases de rápida mudança social, ou quando se amplia o horizonte temporal da análise, os mesmos devem ser objeto de meticuloso estudo. Essa observação é particularmente pertinente com respeito a sistemas econômicos heterogêneos, social e tecnologicamente, como é o caso das economias subdesenvolvidas. Em certo sentido, o trabalho desses economistas aproxima-se do daqueles outros preocupados em dinamizar os modelos econômicos. Em um e em outro casos, tem-se em vista transformar constantes em variáveis, o que permite alcançar um nível mais alto de generalidade no esforço de teorização. Considerando o problema sob outro aspecto, os estruturalistas retomaram a tradição do pensamento marxista, na medida em que este último colocou em primeiro plano a análise das estruturas socais como meio  para compreender o comportamento das variáveis econômicas.
A presença de Celso Furtado foi central no debate que corresponde ao amadurecimento e auge do ciclo ideológico do "desenvolvimento" no Brasil, entendido como a ideologia de superação do subdesenvolvimento, através de uma industrialização planejada e orientada pelo Estado. O ciclo desenvolvimentista de 1945 a 1955 amadureceu em dois sentidos; primeiro, através da difusão das idéias desenvolvimentistas por intermédio da multiplicação de documentos de governo, periódicos, livros, artigos de jornal etc., segundo, no sentido de amadurecimento analítico. Como exemplo o vanguardismo desenvolvimentista de Roberto Simonsen, no célebre debate de 1944 com o líder neoliberal Eugênio Gudin, por mais que atraísse as pessoas, não havia encontrado no plano analítico, melhor defesa para o desenvolvimento. Disputa que favoreceu ao desenvolvimentismo cepalino a partir de 1949. O bastão dessas idéias vangardistas passou para as mãos de Celso Furtado com a morte de Simonsen. Ironicamente Celso Furtado já vinha operando na difusão das idéias cepalinas os anos anteriores, quando então Furtado passaria a ser a grande referência desenvolvimentista no Brasil.
Durante seus primeiros anos na CEPAL, Furtado desenvolveu um intenso trabalho, além de participação na elaboração do Economic Survey of Latin America, dirigiu e elaborou partes do Estudio Preliminar Sobre La Técnica de Programación del Desarrollo Econômico e foi o primeiro presidente da sociedade civil (Clube dos Economistas) e quem elaborou uma nova Revista Económica Brasileira, a qual tentaria promover idéias independentes da linha que regia as publicações da Fundação Getúlio Vargas, nesse momento sob o controle da ortodoxia econômica de Eugênio Gudin e Octávio Bulhões. Em A economia...(1954), muito da teorização e da primeira reflexão sobre o crescimento e a industrialização em relação ao Brasil e produto de sua estada da CEPAL, Furtado afirma que o Brasil já havia assumido no passado políticas relativamente heterodoxas de defesa do capital nacional, época em que a era da "ideologia desenvolvimentista" já estava personificada. Essa obra não foi muito bem recebida pela CEPAL, cuja atitude foi elaborar regras de publicação para os autores que ali trabalhavam.
Os elementos históricos ocorridos no transcurso da segunda metade da década de 50 ensejaram as mudanças que estariam para ocorrer nos anos 60 nos rumos do debate econômico - um acirramento dos problemas macroeconômicos, crescente visibilidade urbana da heterogeneidade social, resultante da incapacidade da indústria em absorver a enorme força de trabalho que migrava do campo à cidade.
Para compreender o contexto em que se desenvolveram os discursos sobre o desenvolvimento, é fundamental levar em consideração a conjuntura brasileira nessa época. Lembremos que, sem o apoio decidido de Getúlio Vargas, a CEPAL não poderia ter sido construída, devido à veemência (Mallorquin, C., op. cit.) com que o governo estadunidense se opunha. O Brasil talvez representasse a nação latino-americana mais pura naquilo que foi denominado "o projeto nacional de desenvolvimento". A "industrialização" foi sempre um anseio primordial nas idéias de Getúlio Vargas. É óbvio, então, a eminente participação do "Estado" na configuração do processo de desenvolvimento brasileiro.
No Brasil, o discurso relativo ao "progresso" via a industrialização, antecipou sobremaneira as discussões em relação a outras nações. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a criação da CEPAL,[1] surgiram de condições para se repensar o "desenvolvimento nacional".
"É no campo econômico, entretanto, que a Lei da SUDENE encerra elementos inovadores substanciais. Temos avançado muito, em nosso país, no sentido da formação de uma consciência nova das funções do Estado. Em poucas partes do mundo, a concepção novecentista do Estado gendarme foi tão superada como entre nós. Temos plena consciência de que o desenvolvimento é um grande parte, a resultante de uma ação estatal bem concebida."
Furtado, Celso. 1959 - Discurso de posse do cargo de superintendente da SUDENE
Em que pese as diferenças de tom - os textos anteriores a 1964 são mais esperançosos - os elementos de continuidade na obra de Furtado são muito superiores aos de ruptura. O diagnóstico central a toda a década de 60, era o de que a industrialização não estava eliminando a heterogeneidade e a dependência, mas, apenas alterando a forma como essas características passavam a se expressar. O que ocorre a partir de 1964 é a introdução de dois componentes analíticos; o significado de empresas multinacionais para o comportamento da economia e a questão distributiva.
As idéias que permeavam o período da década de 60 nas obras de Furtado e a sua contribuição às noções de desenvolvimento e a dimensão histórica na análise estruturalista do subdesenvolvimento podem ser compreendidas pela noção dada de subdesenvolvimento. Entendido-se desenvolvimento como sendo uma das linhas históricas de projeção do capitalismo industrial cêntrico em nível global e a do subdesenvolvimento como sendo um "processo histórico autônomo", que tende a se perpetuar e que não pode ser considerado uma simples etapa de desenvolvimento econômico pela qual passa todos os países.
A grande contribuição está nas estratégias de desenvolvimento. Até Furtado, o desenvolvimento era uma evolução que algumas sociedades conseguiam, outras não. Furtado mostrou que o desenvolvimento não era uma evolução, era uma opção. Resultado de políticas que exigiam rupturas.
Diversos aspectos das idéias básicas sobre o desenvolvimento e o estabelecimento de uma conexão explícita com a cultura, foram analisados por Celso Furtado já nos idos de 1964, mas foi quando de sua estada em Cambridge que essa temática tornou-se preferencial em seu trabalho, do qual resultou o livro "Criatividades e dependência na civilização industrial", publicado em 1978. As grandes questões tratadas nessa obra são retomadas, no livro "Cultura e Desenvolvimento em época de crise" de 1984, ambos precisam e aprofundam um conjunto de idéias básicas sobre desenvolvimento e cultura.
O problema político essencial para o intelectual - destaca M. Foucault - não é criticar os conteúdos ideológicos que estariam ligados à ciência ou fazer de tal modo que sua prática esteja acompanhada de uma ideologia justa. É saber se é possível construir uma nova política da verdade. O problema não é "mudar a consciência" das pessoas ou o que têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional da produção da verdade.
"Verdad y poder", Microfísica do poder, Madrid, La Piqueta, Madrid, 1980, subrayados míos, p.189
Faz-se necessário, ainda, aprofundar os conhecimentos na desafortunada associação das idéias de Celso Furtado com as do próprio Prebrich, bem como, e não menos importante, é decifrar e conhecer os códigos que dominaram a recepção de suas idéias. Tudo isso leva à conclusão de que as ciências sociais latino-americanas parecem desconhecer sua grande dívida com o economista brasileiro. Sua herança é incomensurável e deve ser resgata do esquecimento para (re)construir as verdades deste mundo. Furtado, como intelectual comprometido com a transformação das relações sociais reinantes, não foi alheio a esta problemática: deixou-nos como legado um "regime da verdade" sobre a idéia do subdesenvolvimento e as possíveis vias para sua superação.
Um novo Horizonte: Cultura e Desenvolvimento
Reproduzindo um trecho de um texto publicado pela "Revista da Cepal" em abril de 2000, revista da escola de pensamento que Furtado, há 52 anos, ajudava a construir. "A globalização opera em benefício dos que estão na vanguarda tecnológica e exploram os desníveis do desenvolvimento entre países. Os países com grande potencial de recursos naturais e acentuadas disparidades sociais, o caso do Brasil, correm o risco de desagregar-se ou deslocar-se a regimes autoritários. Para escapar dessa disjuntiva, há que voltar à idéia do projeto nacional, recuperando para o mercado interno o centro dinâmico da economia. A maior dificuldade reside em reverter o processo da concentração de renda, o que só poderá fazer-se mediante uma grande mobilização social. Em poucas palavras, podemos afirmar que o Brasil só sobreviverá como nação se se transformar numa sociedade mais justa que conserva a sua independência política". O texto é bastante representativo da sua posição, e que ao mesmo tempo pré-anuncia uma temática que talvez venha a ser central nesta década. A via brasileira do desenvolvimento não tem que ser uma "terceira via", tem que ser uma via própria, resultado de um projeto nacional derivado das especificidades do país.
Colocando à parte os esforços para definir cultura, Celso Furtado entende cultura como sendo um sistema, um conjunto cujas partes que guardam certo grau de coerência entre si. Entende que esse sistema constitutivo da cultura tende à mudança, estando sujeito à continuas mutações que, geralmente, supõem o enriquecimento; por vezes, um enriquecimento cultural rápido e considerável. Para Furtado, o desenvolvimento se aplica a esse sistema. O desenvolvimento, em outras palavras, diz respeito à cultura, globalmente considerada. Consiste, essencialmente em dar curso à capacidade criativa do homem. Há, para Furtado, dois processos distintos de criatividade. De um, derivam inovações no âmbito daquilo que se denomina "cultura material", representada ou definida pelo dueto progresso técnico/acumulação - entenda-se que o termo inovação não está empregado em seu sentido usual. Do outro, derivam inovações que se dão no âmbito da "cultura não-material", entendida de forma sintética como o patrimônio de idéias e valores que uma sociedade vai construindo.
(...) Temos o dever de nos interrogar sobre as raízes dos problemas que afligem o povo e repudiam posições doutrinárias fundadas num reducionismo econômico. Como ignorar que os germes da crise atual já corroíam nosso organismo social na fase de rápido crescimento das forças produtivas do País? Não terá sido o nosso um desses casos de mau desenvolvimento que hoje preocupam os estudiosos da matéria? (...) Impõem-se formular a política de desenvolvimento a partir de uma explicação dos fins substantivos que almejamos alcançar, e não com base na lógica dos meios imposta pelo processo de acumulação comandado pelas empresas transnacionais. A superação do impasse com que nos confrontamos requer que a política de desenvolvimento conduza a uma crescente homogeneização de nossa sociedade e abra espaço à realização das potencialidades de nossa cultura.(...)
Furtado, Celso. Discurso pronunciado por ocasião da comemoração dos seus 80 anos de idade e pelos 40 anos de criação da SUDENE. junho de 2000.
É importante insistir brevemente sobre esses dois aspectos da cultura. A criatividade e a inovação nas quais a cultura se expressa, permitem a geração de excedentes econômicos adicionais, que possibilitam a ampliação e a renovação do horizonte de opções disponível aos membros de uma comunidade. Para Furtado, a inovação ou invenção no âmbito da "cultura não-material" - por ser a que amplia o universo de idéias e valores - é a que abre caminhos para a realização das potencialidades latentes do próprio homem, ou seja, a sua auto-identificação através de atividades como a reflexão filosófica, a meditação mítica, a criação artística ou a investigação científica, ainda que a inovação no âmbito material seja fundamental para que essas opções sejam realizáveis. Nas palavras de Furtado, "comecemos por indagar sobre as relações existentes entre a cultura como sistema de valores e o processo de acumulação que está na fase da expansão das forças produtivas. Trata-se de contrastar a lógica dos fins, que rege a cultura, com a dos meios, razão instrumental inerente à acumulação puramente econômica"[2]. "A rigor, pode-se falar em desenvolvimento quando a capacidade criativa do homem se dirige ao descobrimento de si mesmo, empenhando-se em enriquecer seu universo de valores. Efetiva-se o desenvolvimento quando a acumulação conduz à criação de valores que se difundem em importantes segmentos da coletividade"[3].
Furtado acredita que "se admitirmos que nosso objetivo estratégico é conciliar uma taxa de crescimento econômico elevada com absorção do desemprego e desconcentração da renda, temos de reconhecer que a orientação dos investimentos não pode subordinar-se à racionalidade das empresas transnacionais" e que, "devemos partir do conceito de rentabilidade social, a fim de que sejam levados em conta os valores substantivos que exprimem os interesses da coletividade em seu conjunto. Somente uma sociedade apoiada numa economia desenvolvida com elevado grau de homogeneidade social pode confiar na racionalidade dos mercados para orientar seus investimentos estratégicos".
Furtado - ao relacionar o exposto à prática - observa que os conflitos sociais e as atividades políticas surgidas nos grandes centros foram elementos chaves para o impulsionamento das transformações estruturais necessárias à continuidade da acumulação. Por exemplo, a elevação do nível e da massa de salários se dá em decorrência de transformações e impulsos sócio-políticos, e não em virtude de mecanismos puros de mercado. Da mesma forma, a orientação da tecnologia não é alheia às sucessivas instâncias de confrontação que essas transformações e impulsos geram.
Considerações finais
Para vencer o subdesenvolvimento, segundo Celso Furtado, faz-se necessário romper com determinadas estruturas e, consequentemente, romper com certos conceitos arraigados na história. O desenvolvimento dos países de terceiro mundo somente ocorrerá quando essa ruptura acontecer na prática e não com a mudança de fase, evolução do subdesenvolvimento ao desenvolvimento. Furtado argumenta que "o desenvolvimento é uma opção". para que ele ocorra, a cultura tem papel essencial, pois será ela quem determinará o tipo de desenvolvimento que almejado por uma sociedade.
Os padrões tecnológicos e hábitos de consumo dos países centrais ou desenvolvidos não podem e nem devem servir de referência aos países subdesenvolvidos, muito embora, esta tenha sido a grande estratégia destes países quando se referem aos países subdesenvolvidos. A contribuição de Furtado, nesse sentido, é o que se poderia considerar como uma ruptura com os conceitos faseológicos do desenvolvimento, ou seja, o desenvolvimento não deve ser uma terceira via para  os países subdesenvolvidos, deve sim, ter uma via própria cuja economia será o instrumento para o desenvolvimento cultural. Desenvolvimento esse entendido como objetivo final de uma sociedade.



Bibliografia
Furtado, Celso. (1954), A Economia Brasileira - Rio de Janeiro - Ed. A Noite, 1954.
______, Celso. (1959) (fragmentos do) Discurso pronunciado pelo economista Celso Furtado, ao tomar posse do cardo de Superintendente da Sudene- Recife, 1959.
______, Celso. (1959) Formação econômica do Brasil - São Paulo - Companhia Editora Nacional, 1959.
______, Celso. (1959), Desenvolvimento e Subdesenvolvimento - Rio de Janeiro - Fundo de Cultura, 1959.
______, Celso. (1978), Criatividade e Dependência, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1978.
______, Celso. (1983) ,O Brasil Pós-Milagre - Rio de Janeiro - Paz e Terra, 1983.
______, Celso. (1984), Cultura e Desenvolvimento em época de crise - Rio de Janeiro - Paz e Terra, 1984.
______, Celso. (1989), A Fantasia Desfeita - Rio de Janeiro - Paz e Terra, 1989.
______, Celso. (2000) Teoria Política do Desenvolvimento econômico - São Paulo. Paz e Terra, 2000.
GTDN (1959), Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1959
Mantenga, Guido, A economia política brasileira, op. cit; Limoeiro Cardoso, La ideologia dominante, Sigo, XXI, México, 1976,
Cardoso, Fernando, Ideologias de la burguesia industrial em sociedades dependientes, Sigo XXI, México, 1967.
Bielschowsky, R. (Org), Cinqüenta anos de pensamento na CEPAL, Rio de Janeiro, Record, 2000.
Sachs, Ignacy e Formiga, Marcos. coord. Celso Furtado a Sudene e o Futuro do Nordeste, Seminário Internacional, Recife, SUDENE, 2000.






[1] Guido Mantenga, A economia política brasileira, op. cit; Limoeiro Cardoso, La ideologia dominante, Sigo, XXI, México, 1976, e Fernando Cardoso, Ideologias de la burguesia industrial em sociedades dependientes, Sigo XXI, México, 1967.
[2] Furtado, Celso. Seminário Internacional. Celso Furtado a Sudene e o Futuro do Nordeste, SUDENE, junho de 2000.
[3] Furtado, Celso. Cultura e Desenvolvimento em época de crise. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1984 pp 106 e 107.

Tudo Era de Um Branco sem Máculas

Marcos Simão
As premissas que seguiram as linhas dos troncos e das galhas e das galhadas das árvores deram a lugar em 1912 às linhas derivadas da estrutura do espaço no Cubismo analítico. A abstração em grande medida, origem na forma lisa e chapada do Cubismo Sintético, uma modalidade completamente estranha a Mondrian. Imagina-se a primeira vista que ele deva ter desaprovado o fato de Picasso e Braque terem evoluindo com lógica estranha por quatro anos das paisagens de Estaque e de Horta para luminosidade dispersa do período hermético, e de repente deram uma volta para a arbitrariedade. Sabe-se que ele desaprovou o fato de que, alcançando um nível do sublime da abstração da natureza, usaram a colagem, deixaram a realidade - em toda sua banalidade e toda subjugação do tempo para traz - um recurso à nostalgia e o materialismo. É evidente que não poderia aceitar nenhum forma de compilação como uma solução. A forma montada do Cubismo Sintético derivou-se finalmente da forma separada lisa de Gaudin. A fidelidade de Mondrian pertenceu ao Impressionismo e a Seurat, a seus interesses de traduzir uma sensação em um encadeado de pinceladas. As pinceladas de Mondrian Neo-impressionista de 1908-10 eram alongadas nas linhas curtas das marinhas e das fachadas de 1914-15 que eram por sua vez alongados nas linhas que estendem dum lado ao outro da tela e aparentemente além.
Um Mondrian não consiste de retângulos azuis, vermelhos, amarelos e brancos. Eles são concebidos - como limpas e inteminaveis telas. Em termos de linhas, linhas que se podem mover com a força de uma intensa tempestade ou como a delicadeza de um gato.
Mondrian queria o infinito, e a forma é finita. Uma linha reta se estende infinitamente e o espaço aberto entre duas linhas paralelas é rigorosamente fixo e igualmente se estende infinitamente. A abstração de  Mondrian é a mais compacta e imaginável harmonia pictorial,  a mais auto-suficiente superfície pintada (além de ser tão íntima quanto um interior holandês). Ao mesmo tempo que rompe com seus limites de modo que pareça um fragmento de um cosmos maior ou de modo que, começando por um tipo do retorno ao espaço que governa além de seus próprios limites, ele adquire uma segunda ilusão, a da escala, por que as distâncias entre pontos na tela parecem mensuráveis em milhas.
O positivo e o negativo são as causas de toda a ação... O positivos e o negativos rompem com a unidade, eles são a causa de todo a infelicidade. A união do positivo e do negativo é a felicidade. A unidade palpável da flor ou da torre solitária, sujeitas ao tempo e as mudanças, teve que liberar a unidade subliminal de um equilíbrio vívido.

Nos início do século XX muitos artistas tentaram várias maneiras abstratas de representar a realidade. Mondrian foi além deles. Em suas composições finais evitou toda a sugestão de reproduzir o mundo material. Ao contrário usando linhas pretas horizontais e verticais que os blocos do esboço de branco, vermelho puro, azul ou amarelo, ele expressou sua concepção da harmonia e do equilíbrio finais. Mondrian nasceu em 27 março de 1872 em Amersfoort, nos Países Baixos. Estudou na Academia de Amsterdã de 1892 a 1895 começando então suas próprias pinturas. A maioria de seus primeiros trabalhos eram paisagens. Em 1909 começou uma série das pinturas de árvores em que desenvolveu um estilo cada vez mais abstrato. Mudou-se para Paris em 1912 onde foi influenciado pelos pintores cubistas. Durante a primeira guerra mundial, Mondrian pintou nos Países Baixos. Lá ajudou De Stijl, uma revista, de artes que influenciou a pintura, a arquitetura, e o design europeus. Começou também a formular suas próprias teorias estéticas. Seu estilo, e seus princípios artísticos subjacentes, chamou o neoplasticismo. As pinturas mais recentes, que datam de 1920 até sua morte, têm títulos simples, tais como "Composição em Vermelho, Amarelo e Azul" pintado em 1926, e "Composição em Branco, em Preto e em Vermelho" (1936).
Mondrian viveu em Paris de 1919 a 1938. Mudou-se para Londres em 1938 e partiu para New York em 1940. Seus trabalhos foram admirados por outros artistas, mas não venderam. Sua última pintura, chamada ‘Victory Boogie Woogie’', era ainda liberal quando morreu em New York City primeiro de fevereiro de 1944.
Abstração pura
A forma e as cores tiveram sempre sua própria força emocional: os projetos em antigas bacias, em vestimentas, e em mobiliários são abstratos, como são as páginas inteiras de manuscritos medievais. Mas, a pintura ocidental nunca teve antes o prazer de formas como esta, na cor feita independente da natureza, feito seriamente porque um assunto direcionado para o pintor. A abstração transformou-se num veículo perfeito para que os artistas explorassem e universalizasse idéias e sensações.
Diversos artistas reivindicaram ser os primeiros a pintar um retrato abstrato, assim como quando os primeiros fotógrafos reivindicaram sobre quem tinha inventado a câmara. Para a arte abstrata, a distinção é dada com frequência a Wassily Kandinsky, mas certamente o artista Russo, Kasimir Malevich, está também entre os primeiros.
O estilo tardio de Kandinsky teve uma tendência geométrica e a Abstração Suprematista aconteceu na maior parte em torno do quadrado, mas o verdadeiro artista da geometria foi Mondrian. Ele parece ser o artista abstrato absoluto, a pesar de suas primeiras paisagens e suas naturezas mortas serem relativamente realistas.

The Grey Tree (1912) um meio caminho para uma representação abstrata para seu trabalho geométrico, contudo ele têm também um pé no mundo real da vida e da morte. The Grey Tree é uma arte realista no ponto para decolar para a abstração: retirando-se o título e nós tem uma abstração; adicione o título e nós temos uma árvore cinzenta. Reivindicou ter pintado estes retratos da necessidade fazer uma vida, tendo, contudo, uma frágil delicadeza preciosa e rara. Mondrian procurou uma arte de máxima retitude: seu maior desejo era alcançar a pureza pessoal, para desprezar tudo que satisfaz o a emoção e que entra na simples dividade. Isso pode soar tedioso, mas ele compôs com incerteza lírica o contrapeso que fez da sua arte tão pura e purificadora como esperou. Em outras palavras, Mondrian eleminou as linhas curvas, resíduo do que considerava confusão de espírito procedente do barroco. As retas verticais e horizontais deviam ser o único meio estilístico permitido ao Neoplasticismo, evitando toda a limbrança da pincelada emocional; a cor plana, compacta, pura, devia ser a lei indiscutível.
Mondrian impôs rigorosas restrições a si mesmo, usando somente cores preliminares, preto e branco, e formas fortemente delimitadas. Suas teorias e sua arte são um defesa triunfante da austeridade. Diamond Painting in Red, Yellow, and Blue (1921-25) parecem ser vazios de espaços tridimensionais, mas é de fato uma pintura imensamente dinâmica. A forma é densa e com grande tensão cromática. As espessuras variando das beiras pretas contêm-nas no contrapeso perfeito. Integram-se continuamente enquanto nós prestamos atenção, mantendo nos interessados constantemente. Nós percebemos que esta é uma visão da maneira que as coisas como elas pretendiam ser, mas nunca são.


Nossa Diversidade Criadora

(Relatório da Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento)
(Javier Pérez de Cuéllar, Papirus,1997)
Cultura e Desenvolvimento
Duas visões do Desenvolvimento
Com a intenção de limitar a desconcertante gama de significações acerca dos conceitos de Cultura e Desenvolvimento, duas foram as perspectivas utilizadas na visão de desenvolvimento. A primeira, o desenvolvimento é um processo de crescimento econômico, uma expansão rápida e duradoura da produção, da produtividade e da renda per capta, às vezes matizada pela repartição eqüitativa dos benefícios do crescimento. A segunda, o desenvolvimento humano como um processo que fortalece e amplia a liberdade efetiva de um povo em busca da realização dos objetivos por ele valorizados, enfatizando a ampliação das capacidades e das possibilidades dos povos e o alargamento das opções de indivíduos, de grupos e de culturas distintas. Vale ressaltar que essa acepção não denotam o simples incremento da produção material.
A cultura pode ser vista, então, como um instrumento ou como um fim desejável em si mesmo. Para o que trata da acepção de desenvolvimento apenas como crescimento econômico o papel da cultura é puramente instrumental na promoção do crescimento acelerado ou como um obstáculo a ele. Neste caso o crescimento econômico é considerado como algo que tem valor próprio e seus instrumentos são tidos como meios para alcança-lo. Por outro lado, questiona-se se o crescimento econômico é um mero instrumento sem condições de disputar com os aspectos culturais uma posição fundamental para a existência humana. É importante considerar que, no geral, as pessoas apreciam os bens e serviços econômicos, o que as permite viver livremente e segundo seus valores de desejos, mas por outro lodo a própria apreciação desses bens e serviços ou do reconhecimento desses valores e desejos é, em última instância um dado cultural. Eis que surge importantes questões: É a cultura um aspecto ou um instrumento do desenvolvimento entendido como crescimento econômico? Ou, é a cultura a finalidade do desenvolvimento, compreendido na acepção de florescimento da existência humana em todas as suas formas, já que a economia faz parte da própria cultura de um povo.
Para compreender este duplo papel da cultura e sua aplicação, não somente no contexto de crescimento econômico, mas também na conservação do meio ambiente, natural ou construído, bem como na preservação dos valores da família, na proteção das instituições civis da sociedade, etc a cultura deve ser apreendida de maneira mais fundamental: não como instrumental de outros fins, mas como a base social desses próprios fins. Em outras palavras, para compreender a "dimensão cultural do desenvolvimento" é necessário apreender os dois papeis da cultura.

Cultura e Desenvolvimento
O objetivo último do desenvolvimento humano e um dos seus mais importantes instrumentos e meios é, então, o indivíduo. Porém esse não é uma ilha ou átomo isolado, as pessoas trabalham juntas, cooperam, competem, interagindo de diversas formas. A cultura é justamente o que as  conecta e define como elas se relacionam com os meios natural e construído, e como expressam suas atitudes e suas opiniões, tornando possível o desenvolvimento de cada indivíduo. Pode-se, assim, entender desenvolvimento humano e crescimento econômico como partes ou aspectos da própria cultura de um povo. Não há sentido, assim, relacionar cultura e desenvolvimento como conceitos separados e estanques. A Cultura deve ser entendida então como o a finalidade última do desenvolvimento, definido como "florescimento da existência humana em seu conjunto e em todas as suas formas".
Entretanto, essa definição de Cultura é rejeitada e seu significado reduzido ao de "estilo de coexistência" e de desenvolvimento como sendo "a ampliação das possibilidades, oportunidade e opções" e a ligação entre Cultura e Desenvolvimento passa a referir-se ao estudo das várias formas de coexistência que interferem na ampliação das opções abertas ao homem. A Cultura de não é estática ou imutável, ao contrário, é um fluxo constante que influencia e é influenciada por outras, refletindo sua história, seus costumes suas instituições e atitudes, conflitos, etc.
Assim, a noção de "Desenvolvimento Culturalmente sustentável", deve ser empreendido com grande preocupação, visto que a Cultura não pode restringir-se a um papel de instrumento que "sustenta" outro objetivo ou excluir a possibilidade de seu crescimento ou evolução. Pois a Cultura é uma fonte permanente de progresso e de criatividade. Superar o papel instrumental da cultura e reconhecer ser papel construtivo, constitutivo e criativo é pensar o desenvolvimento em termos que englobe o crescimento Cultural.
A maioria dos países são constituídos pela multiplicidade Cultural, gerando benefícios ou conflitos. Os governos não podem determinar a cultura de um povo, são na verdade determinados, pelo menos em parte, pela Cultura desse povo, mas podem influenciá-la positiva ou negativamente e, por conseqüência, modificar as vias do desenvolvimento. O princípio é o respeito, que vai além da tolerância, significa uma atitude positiva diante a diversidade cultural. O jogo nesse caso é de poder, pois a hegemonia Cultural baseia-se na exclusão de grupos subordinados e em argumentos pseudocientíficos invocados para justificar o domínio sobre os outros. "Uma política baseada no respeito mútuo apoia-se largamente na racionalidade científica.
Como, então, substituir o ódio pelo respeito em um mundo familiarizado com a "purificação étnica", o fanatismo religioso e o preconceito racial e social? A resposta pode residir na liberdade cultural, se esta for um dos pilares sobre os quais se assenta o Estado. Esta liberdade é diferente das outras formas de liberdade, não podendo ser comparadas. Primeiro, enquanto grande parte das liberdades são individuais a liberdade Cultural é coletiva. O que não implica a conivência com a corrupção de direitos coletivos, a exemplo das sociedades de castas ou dos grupos de pressão que neguem qualquer tipo de liberdade individual.
Segundo a correta interpretação da liberdade cultural garante a liberdade a liberdade um seu conjunto, não apenas a coletividade, mas também o indivíduo. A liberdade cultural, nesse caso, constitui uma proteção adicional para a liberdade individual.
Terceiro ao proteger modos alternativos de vida, de que trata os fundamentos do Desenvolvimento Humano, a liberdade individual incentiva a criatividade, a experiência e a diversidade, ao mesmo tempo que torna as sociedades inovadoras dinâmicas e duradouras. Por fim, a liberdade é a espinha dorsal da cultura, em particular a liberdade de decidir ao que dar valor e que modos de vida buscar, de definir nossas próprias necessidades fundamentais, o que tem sido ameaçado por pressões globais e pela negligência mundial.

Cultura Global fragmentada.
Não menos importante que a expansão dos processos econômicos e sua interdependência internacional aplicada ao comércio, ao investimento externo, ao fluxo monetário e às migrações populacionais, a de expansão internacional os processos de natureza cultural estão se tornando globais. As atitudes dos jovens de Ladakh a Lisboa, da China ao Peru, enfim nos quatro cantos do mundo estão semelhantes, seja no uso do jeans, no penteado, nos mesmos gostos para música, nos hábitos alimentares ou em relação à sexualidade, ao divórcio e ao aborto. Também romperam as fronteiras e tornaram-se crimes globais o trafico de drogas, o abuso e a violência sexuais, a fraude e a corrupção.
Contribuições culturais nesse processo de mundialização cultural não são prerrogativa de um só país, elas vêem dos quatro cantos do mundo e exercem grande pressão para penetrar outras culturas, à exemplo da cultura popular mundial na música, no cinema, na televisão, na moda. O perigo, entretanto, reside dessa expansão da cultura de massa popular, onde o tamanho e a escala dos meios de comunicação ditam o conteúdo a ser divulgado, muitas vezes em detrimento dos desejos e dos interesses das minorias, afetando assim não só o interesse das elites, mas dos homens e mulheres comuns. A diferença deve residir na diversidade e a oportunidade para que uma ampla gama de vozes possa ser ouvida no público mundial.
Porém, "a impressão de uniformidade global é ilusória". A mundialização é, em si, uma processo desigual e assimétrico: não reduz as incertezas, as inseguranças e a entropia do sistema mundial. No mundo pós-guerra-fria, a consciência dessa realidade tem gerado algumas reações contra os padrões uniformizados de informação e de consumo que são muitas vezes mal aceitos, principalmente na Europa Central e Oriental. Os povos voltam-se para a cultura como um meio de autodeterminação e de mobilização, e reafirmam seus valores culturais locais. Assim como os mais pobres, onde seus valores culturais são muitas vezes o único bem que eles possuem, sua identidade, continuidade e sentido de vida.
É, uma reação contra os efeitos alienantes da moderna tecnologia de larga escala e da distribuição desigual dos benefícios da industrialização, e, uma preocupação como a perda de identidade, do sentido de comunidade e dos valores pessoais advindos do desenvolvimento.
O caráter dinâmico e evolutivo da Cultura e seu papel de indenidade provocam conflitos, pois muitos grupos desejam retornar as suas tradições antigas ou mesmo mantê-las na forma de um retorno ao tribalismo, ao passo que muitas pessoas desejam participar da "modernidade" dentro de suas próprias tradições. Assim, alguns aspectos tradicionais merecem ser preservados integralmente, na medido em que podem, como outros, ter um papel instrumental no processo de desenvolvimento econômico. Outros aspectos evoluirão para adaptar-se ao mundo em evolução e outros serão implantados de fora. Tradição pode significar às vezes estagnação, opressão, inércia, privilégios e práticas cruéis; modernização, por seu turno, pode significar alienação, anomia, exclusão e perda de identidade e do sentido de comunidade.


Quando falamos em civilização mundial, o que temos em mente não é um único período histórico nem um único grupo de homens: empregamos o conceito abstrato, ao qual atribuímos um significado moral ou lógico. Moral, se pensarmos em objetivos perseguidos pelas sociedades existentes; lógico, se usarmos a noção para designar os traços comuns encontrados na análise de diferentes culturas. Tanto em um caso como em outro, não podemos fechar os olhos para o fato de que o conceito de civilização mundial é muito esquemático e imperfeito, e que se conteúdo intelectual e emocional é fraco. Tentar avaliar todas as contribuições culturais acumuladas durante vários séculos tão ricos em pensamentos, sofrimentos, esperanças e no trabalho criador de homens e mulheres, tendo como única referência a noção ainda vaga de civilização mundial, seria empobrecê-la sobremaneira, esvaziando-as de seu sangue e nada deixando senão ossos.
A verdadeira contribuição de uma cultura consiste não na lista de invenções produzidas por indivíduos, mas na sua originalidade em relação às outras. O sentido de gratidão e de respeito que todo membro de uma determinada cultura ode e deve sentir em relação às outras deve estar baseado na convicção de que as outras culturas de distinguem de sua própria de várias maneiras, mesmo se a verdadeira essência das diferenças lhe escapa, ou a despeito de seus melhores esforços, ele só pode compreendê-las de forma apenas imperfeita.
Portanto, a noção de civilização mundial só pode ser aceita como um tipo de conceito-limite, ou como uma forma esquemática de designar um processo altamente complexo. Não há, nem haverá, uma civilização mundial no sentido absoluto em que esse termo é usado, pois a civilização implica a coexistência de culturas dotadas de um vasto espectro de diversidade; na verdade, a civilização consiste nessa coexistência. Uma civilização mundial poderia, de fato, representar simplesmente uma coalizão de culturas em escala mundial, cada uma das quais preservaria sua própria originalidade.
Claude Lévi-Strauss

O PATRIMÔNIO CULTURAL A SERVIÇO DO DESENVOLVIMENTO
O patrimônio tangível e o patrimônio intangível.
As riquezas herdadas por nossa geração, e, de nossa responsabilidade na transmissão para as futuras gerações, constituem-se de recursos culturais tangíveis e intangíveis e são essencialmente não renováveis. Trata-se da memória coletiva e de identidade de comunidades de todo o mundo. A proteção desse patrimônio cristalizou-se primeiro nos bens tangíveis (monumentos e sítios históricos), sendo estes os principais beneficiários da noção de preservação do patrimônio. Entretanto o patrimônio intangível não teve a mesma sorte. A idéia de patrimônio em toda parte conforma-se a um único modelo dominado por critérios estéticos e históricos, privilegiam a elite e o masculino; merecem atenção e respeito o monumental em detrimento do simples, o literário em detrimento do oral, o cerimonial em detrimento do cotidiano, o sagrado em vez do profano. Somente por meio da preservação dos elementos intangíveis é possível considerar as culturas autóctones de uma perspectiva histórica.
Há um sentimento dos que consideram o patrimônio cultural e natural, em todos os seus aspectos, não tem sido utilizado e valorizado de forma ampla e efetiva como poderia, nem tem sido gerido com a devida sensibilidade. Embora pareça haver um investimento cada vez maior no "futuro do passado", existe um diferença entre a retórica e a prática, principalmente quando se trata de avaliar o que tem sido efetivamente preservado, e em que estado. Na medida que o conceito de patrimônio amplia-se com novas categorias, numa espécie de inflação, há mais o que preservar a também há mais problemas a serem geridos. A questão que se apresenta tem haver com as possibilidades finitas e trata especificamente de como proceder escolhas e quem decide? Sabendo que o dinheiro e a energia poderiam ser empregados para satisfazer as necessidades básicas das pessoas levanta outras questões: O que deve ser preservado e a quem cabe decidir? Quais serão os critérios? Estarão sendo observados e reconhecidos as necessidades específicas do diversificado patrimônio cultural e natural?

Patrimônio cultural e economia: Vantagens e armadilhas
A preservação histórica, já nos anos 70, foi uma das primeiras áreas culturais a receber recursos financeiros por ser um setor que se justificava economicamente. A reutilização dos centros históricos, após readaptados, freqüentemente como museus, foi considerada eficiente em termos de custo-benefícios. A idéia de "conservação com desenvolvimento", encontrou adesão em todo o mundo e ganhava legitimidade teórica e prática. Porém essa união entre oportunidades econômicas desvinculadas dos sistemas de valores representados pela conservação, não foram muito felizes. A conservação não poderia ser bem-sucedida se as relações entre espaço construído e fatores como a qualidade da infra-estrutura urbana, a propriedade do solo urbano, o crescimento e a densidade demográfica, a disponibilidade de habitações, a saúde e a pobreza urbana não forem levados em consideração.
Uma abordagem de "cima para baixo", um planejamento urbano imposto por estruturas burocráticas, criadas ainda no período colonial, onde a ênfase dessa instituições era sepultar o passado. Em conseqüência, o distanciamento dessas instituições com o povo gerou um hiato até hoje observado. O patrimônio assim, é considerado propriedade do Estado e não do povo. Os recursos escassos do estado relegam, então, esses patrimônios ao quase esquecimento, apresentado diversos estados de conservação, quando não são invadidos por populações "sem-teto" ou comerciantes irregulares. Já os patrimônios não tombados freqüentemente vão a ruína total.
O pós independência e o flagelo do paradigma modernista na arquitetura e no urbanismo conduziu a demolição de trechos inteiros das cidades pré-coloniais. O recife não foi exceção.
Nem o sentimento nacional, tampouco a iniciativa privada aproximaram-se da idéia de patrimônio histórico como fonte de identidade, em contrário, o hiato fora acentuado.
Abordagens populares sobre o assunto têm gerado experiências de desenvolvimento comunitário e melhoria da qualidade de vida em níveis economicamente realistas e tecnicamente apropriados. Novas instituições têm auxiliado as comunidades locais a gerir a conservação cultural. O retorno mais durável do investimento não tem sido financeiro e sim educacional e social. O custo preservação de patrimônio histórico em áreas de grande pobreza enfrenta dificuldades de justificação orçamentária. Nesse aspecto está sendo de grande importância o papel das organizações não governamentais, muitas vezes melhor sucedidas na captação de recursos externos.
O turismo, no seu turno, está se tornando rapidamente a maior industria mundial, e é no patrimônio cultural que ele encontra grande parte de sua força vital. A simbiose desses conceitos conduz ao surgimento da conhecida "industria do patrimônio, o que gera certa preocupação pela possibilidade do patrimônio cultural vir a se tornar um bem a serviço do turismo, degradando-o e dilapidando-o. Muitos já são os casos de efeitos catastróficos na conservação e ao tecido social e ambiental de vários sítios em função do número excessivo de turistas.

A identificação e a interpretação.
A reavaliação do que se define hoje como patrimônio em diferentes culturas, em termos de seu uso, de proteção e de manutenção, faz-se urgentemente necessário, visto que nenhum quadro conceitual pode ser aplicado a todas as diferentes condições locais, bem como, não existe nenhum método científico que se apoie na experiência existente e nos novos conhecimentos adquiridos para conservar e restaurar patrimônios geoculturais distintos. O simples fato, por exemplo, de definir uma construção dotada de patrimônio histórico ou cultural, implica coloca-la uma pouco à parte da vida cotidiana que se apresenta no palco do ambiente construído, porém muito distante da elite, cultural e topograficamente, contribuindo para a decadência do contexto físico e social onde se encontram esses elementos. Em outras palavras a definição de conservação de um patrimônio  carece de uma identificação apropriada de suas arquitetura com base na família estilística a qual pertence, e do manuseio sensível dos elementos dentro de seu quadro.
A identificação e a interpretação do patrimônio passa, então por, por uma série de intermediários entre o Estado e o público e incluem universidades e institutos de pesquisa capazes de fornecer conhecimento científico e compreensão do significado do patrimônio. A igreja também é peça importante nessa identificação, pois é parte de um culto vivo, e a consciência da dimensão religiosa é necessária para que o apoio social seja adequadamente  mobilizado. Esse conhecimento é necessário para que o objeto não seja desviado do seu contexto, o que levaria a uma compreensão incompleta do objeto. O tangível somente pode ser interpretado pelo intangível, entretanto a retórica e a prática internacionais tem limitado o patrimônio a dimensão tangível.
De fato, nos  atos políticos de evocação aberta as complexidades das provas culturais tendem a concentrar-se exclusivamente em objetos altamente simbólicos em detrimento de formas populares de expressão cultural ou da verdade histórica, condensando e simplificando de forma radical a realidade.
Talvez esses símbolos só sejam importantes se as ideologias políticas forem utilizadas para causas justas como instrumento de libertação da opressão, em vez de serem, como são, freqüentemente utilizados para resgatar direitos legítimos para uns, e negá-los a outros.
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